O CASO FELIPE II: SOFONISBA ANGUISSOLA E O LEGADO FEMININO ESPOLIADO

Autora: Bárbara Lopes Buarque

Artigo apresentado na 1ª Conferência Brasileira de Direito & Arte

Rei Felipe II
Raio X

Introdução

Era muito difícil, quase impossível, ser mulher e artista; no entanto a sociedade italiana da época permitia e valorizava a pintura feita pelas mulheres. No Renascimento, certas mulheres conseguiram vencer algumas barreiras e começaram a pintar. Neste período os ensinamentos da pintura e da escultura eram realizados dentro da família e nas oficinas dos artistas, e as mulheres que praticavam essa profissão costumavam ser filhas de pintores. Uma delas foi Sofonisba Anguissola, primeira mulher a conquistar sucesso com seus quadros por toda Europa. Sofonisba nasceu de uma família nobre, seu pai não era pintor, mas sim um humanista convicto, que queria que suas filhas fossem educadas nas artes. Ao perceber que Sofonisba possuía talento, a enviou para o ateliê do pintor Bernardino Campi em 1543, aos 11 anos. Lá passou cerca de seis anos, que serviram para o desenvolvimento do seu talento inicial, bem como aprender as técnicas do ofício, como preparar a tela ou o quadro antes de serem pintadas e obter mistura dos pigmentos.


As mulheres na época não podiam assistir às aulas de modelo vivo, e a partir disso eram definidos os trabalhos que uma artista poderia ou não fazer. Os temas mitológicos e históricos demandavam que o pintor possuísse muito conhecimento de anatomia e movimento, então, era praticamente inviável pintar anatomia humana sem a ter estudado. Acabando assim a restringir os temas pintados por mulheres. Dentro deste contexto, Sofonisba Anguissola decidiu se dedicar aos retratos.


Contudo, quando Sofonisba se muda para a Espanha em 1559 para ser dama de companhia da rainha Isabel, ela passa a não poder mais assinar suas telas. Uma pessoa com tamanha proximidade com a família real não poderia exercer uma atividade principal como pintora, no caso deveria ser uma atividade secundária. Além disso, Sofonisba não podia vender seus quadros, que naquele momento já eram conhecidos e desejados por muitos. A partir de então, ela passa a dar seus quadros como presentes.


No entanto, após sua morte, Sofonisba foi praticamente esquecida, principalmente pelo fato de que a maioria de suas obras não possuísse assinatura. Assim, essas obras acabaram sendo atribuídas a outros artistas, como: Zurbarán, Moro, Tiziano, El Greco, Van Dyck e até mesmo Leonardo da Vinci.


O presente artigo pretende analisar o caso da obra Felipe II, hoje exposta no Museu do Prado em Madri. Este retrato ilustra um fenômeno que se repetiu ao longo da história: a atribuição de obras executadas por mulheres a homens contemporâneos, apagando a fama alcançada. Esta obra foi por muitos anos atribuída erroneamente a Juan Pantoja de la Cruz. Somente em 1990, na exposição “Alonso Sánchez Coello e retratos da corte de Felipe II”, houve uma revisão técnica da obra no Museu do Prado, e a partir de então a autoria da obra é devidamente dada à Sofonisba Anguissola.


A metodologia utilizada foi pesquisa bibliográfica e análise de imagens, que ocorreu por meio da consulta de bancos de dados e sites especializados.


Resultados e Discussão:

Sofonisba Anguissola possuía prestígio e reconhecimento na corte espanhola, apesar de não ter uma posição relacionada à sua profissão na corte, ela fez inúmeros retratos da família real. Nestas obras a artista mostra sua sintonia com o retrato da corte espanhola, porém, exibindo nuances próprias: suavidade na modelagem, utilizando iluminação difusa e uma pincelada sutil e leve.


O retrato de Felipe II foi uma das imagens mais elaboradas de Sofonisba, feito em 1565, quando o monarca era casado com a rainha francesa; embora tenha sido posteriormente retocado, em 1573, para fazê-lo coincidir com sua quarta esposa. É uma obra emblemática que fazia parte do seleto grupo de 50 pinturas que foram escolhidas para integrar o Museu Napoleão e posteriormente reivindicadas para o Prado, onde retornaram em 1827.


Como mencionado, em 1573 Sofonisba Anguissola decidiu atualizar o retrato do monarca. Em relação aos trajes, o raio x mostra que, inicialmente, o rei estava coberto por um volumoso boêmio, em vez do atual manto fino escuro; e é na pose que as modificações mais significativas são vistas: a mão direita que foi colocada no peito descansará na nova versão no braço de uma poltrona, enquanto a esquerda, que parece estar com alguma coisa, provavelmente uma insígnia, vai segurar um rosário de contas de madeira. 


No entanto, a pintora manteve intacta a fisionomia do rei, que apresenta uma imagem mais jovem do que na época da adaptação. É possível que tenha vindo do próprio rei, o pedido à pintora que não o envelhecesse na obra, para não distanciar-se muito do retrato de sua esposa, vinte anos mais jovem que ele. É conhecido o fato de que na época o retrato agradou muito ao monarca, pois em gratidão, designou à pintora uma pensão vitalícia e deu-lhe uma jóia. 


O retrato de Felipe II  foi atribuído durante séculos a Juan Pantoja de la Cruz, como aparece em diferentes inventários de Alcázar de Madri e, posteriormente, nos anos quarenta do século passado é atribuído a  Alonso Sánchez Coello. Contudo, em meados do século passado começaram os questionamentos sobre essas atribuições e sugere-se uma pincelada italiana, que logo seria concretizada por Sofonisba Anguissola.


Sua presença no inventário Real começa no Alcázar de Madri, em 1686  onde é mencionada pela primeira vez. Encontramos também em outros inventários, como  Felipe IV, Alcázar de Madri, 1636. No Inventário Real do Museu de 1857,  a atribuição a Pantoja é mantida  e sua numeração é alterada para n° 277. Por fim, o Inventário Geral de 1990, mantém o número 277 e a autoria de Pantoja, embora se destaque a possibilidade de que o trabalho possa ser de  Sofonisba "Anguisciola". Há uma inconsistência entre a numeração e a imagem, vide na fotografia como o número mais antigo, o número 288  (1794) é sobreposto ao mais recente, 277  (1857), de acordo com os inventários mencionados, quando deveria ser o contrário. 


Em relação aos Catálogos do Museu, a obra esteve desde as primeiras edições com sua atribuição a Pantoja, e não até o  catálogo de 1945, realizado por Sánchez Cantón, quando Sánchez Coello foi concedido pela primeira vez a sua numeração atual, nº 1036. Posteriormente no Catálogo de 1972 se refere à opinião de Diego Angulo Íñiguez, que questiona a autoria de Sánchez Coello e a possibilidade de que o retrato seja de Sofonisba Anguissola. Por fim, a atribuição à pintora italiana é estabelecida no Catálogo de 1985.


Conclusão:

Embora a atribuição à Sofonisba já tivesse sido dada como certa em 1985, a autoria é consolidada a partir da exposição que teve lugar no Museu do Prado em 1990 sobre Alonso Sánchez Coello e o retrato na corte de Felipe II, que foi a oportunidade de realizar uma análise técnica deste trabalho que concluiu com a atribuição definitiva para a artista italiana. O estudo técnico, realizado pela especialista Carmen Garrido, pode ser encontrado no catálogo da exposição e pode ser consultado online no site do Museu do Prado.


A possibilidade de conquista do sucesso artístico feminino é hoje um elemento valioso no legado histórico e feminista de Sofonisba. A pintora italiana foi incluída em Vidas dos Artistas de Giorgio Vasari; ela desfrutou do privilégio de uma vida artística e o patrocínio da corte espanhola. Sua identidade foi usurpada após sua morte, e cabe aos profissionais do mundo da arte trazer a luz seu legado.


Referências:

BAYER, A. Sofonisba Anguissola and her sisters. Cremona, Viena and Washington. The Burlington Magazine, 1995.

CHICAGO, J.; LUCIE-SMITH, E. Womem and Art: Contested Territory. New York: The Ivy Press Limited, 1999.

HARGRAVE, I. Sofonisba Anguissola (1532/38-1625): Uma pintora no Renascimento Espanhol. Campinas, SP: Unicamp, 2010.

JACOBS, F. Woman’s Capacity to Create: The Unusual Case of Sofonisba Anguissola. Renaissance Quarterly, 1994.

PERLINGIERI, I. S. Sofonisba Anguissola: The First Great Woman Artist of the Artist of the Renaissance. In: HARRIS, A. S. Painting a flawed portrait. The Women’s Review of Books, New York: Rizzoli, 1992.

Museu do Prado: https://www.museodelprado.es

Biblioteca Digital Museu do Prado: https://www.museodelprado.es/aprende/biblioteca/biblioteca-digital

 

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